expr:content='data:blog.isMobile ? "width=device-width,initial-scale=1.0,minimum-scale=1.0,maximum-scale=1.0" : "width=1100"' name='viewport'/> Cineasta Luiz Rangel: Outubro 2013

sábado, 12 de outubro de 2013

Critica da Revista Cinética Sobre Longa de Luiz Rangel

Réquiem para Laura Martin, de Luiz Rangel (Brasil, 2012)

setembro 16, 2013 em Andrea Ormond, Cinema brasileiro, Em Cartaz
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Fora de moda
por Andrea Ormond
Esqueçam a Gramado das ruas pacatas, chocolates sórdidos e bochechas rosadas. A praça dos muckers e colonos; o lugar em que o Brasil é “europeu” e tão provinciano quanto qualquer outro buraco. Apesar de instalado nas serras gaúchas, Réquiem Para Laura Martin (2012) procura um cosmo próprio. Vá lá, usa o frio de almanaque e vende-o ao público tropical, acostumado ao cinema brasileiro de temperaturas demoníacas. Nenhum sinal de chinelos, bermudas ou meninos magros procurando água. Tudo em Laura Martin quer ser gélido, interiorizado, atmosférico. Desde o primeiro suspiro da trama. Desde a primeira touca de feltro, o primeiro sobretudo, a primeira galocha. Aquela névoa que estapeia as coníferas e invade as cenas.
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Pecado dos pecados, os personagens ainda cometem a santa heresia de não praguejarem contra a ordem econômica. Não recriminam a mais valia, não vociferam a pachochada ambientalista, nem mesmo contra os vendedores de subprodutos do cacau. Réquiem Para Laura Martin é, portanto, “alienado” e, por conta desse traste politicamente incorreto, passou em branco nos cinemas. Teve também o destino de ser escrito, produzido e dirigido fora da grande onda de tapinha nas costas e batedores patrulhando a recepção ao filme. Independente que só, tentou algo particular. E conseguiu.
Já em 1978, Walter Hugo Khouri tocou para o mesmo set, dividindo-se entre Gramado e a vizinha Canela. As Filhas do Fogo é um momento à la Edgard Allan Poe na obra do diretor, que conseguiu o expressionismo – aspecto intrínseco a todo Khouri –, adicionando agora o elemento do terror. Pensem nas árvores engolindo os homens, em As Filhas do Fogo: o revertere ad locum tuum. Fim de linha, fim de papo, a vida e o eterno. Coincidência ou não, Paulo Duarte (roteirista e co-diretor) dedica Laura Martin a Walter Hugo Khouri. Falta, porém, o sobrenatural de As Filhas do Fogo. Encontramos, isto sim, uma espécie de Marcelo – o personagem-chave, presente em outros filmes do paulistano. O Maestro (Anselmo Vasconcellos) é em Laura Martin uma criatura sem nome, que se impõe pelo fato tão-só de ser “O” maestro. Um cinquentão subjugado, que cai de quatro, aos pés da manceba Laura Martin (Ana Paula Serpa). Pianista, musa inspiradora, dominatrix e afins. O que em Khouri era fálico a toda prova, em Réquiem Para Laura Martin é uma promessa de masoquismo, que, no extremo, leva à boa e velha perversão.
As Filhas do Fogo (1978), Walter Hugo Khouri
As Filhas do Fogo (1978), Walter Hugo Khouri
Há sexo adulto, há cat fight entre a esposa histérica (Raquel, Cláudia Alencar) e a donzela Martin. Isto porque Laura estava entrevada, babando e alternando consciência com estados de letargia que lembram os melhores documentários do Discovery Channel. A doença de Laura trai algumas deficiências do roteiro – às vezes boquicheio e simplório na caracterização do Maestro. É preciso que Laura esteja fraca e se anule. Apenas assim, Raquel sai da toca e leva na bandeja algumas das melhores cenas do filme. Nos planos longos, os atores se esbaldam. O Maestro masturba-se na cama, ao lado de Raquel, pouco antes de dormir. A mulher lê um livro, Maestro pede-lhe um lenço para secar as gotas de Onã. A cena é especialíssima, uma das mais fortes realizadas no cinema brasileiro contemporâneo. As imagens demonstram a solidão e a patologia do casal. É um falso gozo, no meio do festim de amor que nos é empurrado goela abaixo, em redes sociais e slogans fuleiros.
Mais adiante, Raquel pinta Laura como uma boneca, reeditando os piores dramas da competição feminina e culminando em um orgasmo. Lembra uma maternagem do mal: o seio de leite empedrado, a ferida narcísica que nunca fecha. Como se estivessem em Emanuelle, o Maestro então oferece a esposa a um aspirante bocó, após ganhar uma partida de tênis. Os cavalos, ah!, os cavalos, o mito equino dos anos 1970 está de volta. Mas ao longe, apenas para compor o quadro; as partes íntimas dos animais estão a salvo. No meio tempo, a petulância do Maestro cresce a todo vapor. Pede o impossível à mulher: cuide de Laura, eu preciso. Os galhos das árvores de As Filhas do Fogo poderiam entrar na casa nessa hora. Mas, não. O terror aparece depois, de maneira inusitada: um exploitation de Lucio Fulci, com sangue e explicação lógica, partilhada entre o Maestro e o espectador.
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“Sou uma mulher madura, você é um garotinho de treze anos de idade”, diz Laura. “Só queria que você me amasse”, choraminga Raquel. Alencar acerta o ritmo, Serpa não demonstra a contento o tal furacão de Martin, Vasconcellos baila sem fim, grande, na rara oportunidade de protagonista. Totalmente paranóico e engolido pelo trisal, o Maestro quase não coloca o nariz para fora da choupana, coberta de grama e lençóis encharcados. Quando consegue, surgem os dois interlocutores homens: um jornalista e um médico (Carlo Mossy, em bissexta atuação fora das comédias). Para compor o interno/externo, Paulo Duarte e Luiz Rangel (o outro co-diretor) jogam Maestro em ambientes grandiosos, como carros de luxo, e supostamente grandiosos, como no discurso diante de gatos pingados. Duarte e Rangel acertam em determinados diálogos. O Maestro blasfema contra Deus, dentro de uma igreja. Oferece o sexo da esposa, cheio de uma libido que garotos de vinte precisam hoje de comprimidos azuis para saber que existe. Réquiem Para Laura Martin é, de certa forma, um filme antigo, que choca as platéias e vira motivo de riso. Sempre penso que Saló acabaria visto como comédia, especial de fim de ano da antiga MTV.
Lembro que o último longa-metragem de Alberto Salvá, Na Carne e Na Alma (2011), padeceu de um bloqueio barra pesada até finalmente chegar à luz, quando então o diretor já era cinzas, morto e cremado para todo o sempre. Na história, um garoto apaixona-se por uma garota, vivem as tonterias e as desgraças de um amor que os leva ao ridículo. Excrementos, modess, câmera mostrando o que devia e o que não devia. Mostra, sobretudo, o envolvimento entre homem e mulher. Cabe aos experimentados dizer se é factível ou não: crianças adestradas não entendem. Espera-se que, dentre as mazelas no estatuto sociologizante dos nossos dias, Réquiem Para Laura Martin encontre um caminho, alheio aos confrontos politicóides, com alguns deslizes, mas de uma sinceridade de princípios que convém ao cinema brasileiro entender e dela se aproximar. Tivessem um grupo de entusiastas, Luiz Rangel e Paulo Duarte seriam tachados de gênios. Sendo como são, apenas artistas, ficam à beira da estrada, incompreendidos.

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